Quando moramos, procuramos um lugar onde, livre dos outros, somos livres a sermos nós mesmos. Procuramos em nossa privacidade um espaço só nosso, que reflita nossos gostos, nossas obrigações, nossos prazeres, nossa intimidade mais íntima, já que estamos livres dos outros. Os animais habitam. Nós moramos.
“Morar”, portanto, se resumiria a um apartamento com dimensões e cômodos como quaisquer outros, com o interior, porém, inteiramente espelhado. Paredes espelhadas, chão e teto espelhados. Móveis espelhados, utensílios espelhados. Tudo, tudo espelhado: quando moramos, não buscamos nada além que um ambiente que nos reflita. Logo, não há melhor decoração que nosso próprio reflexo.
O entorno pouco importa. A única coisa que se leva em consideração é até que ponto ele nos é reflexo. Custo, vizinhança, equipamento urbano, distâncias de lugares que queremos próximos são o que procuramos no bairro em que moramos. Ao escolhermos nosso bairro, procuramos o entorno que melhor nos reflita. Ainda assim, escolhemos nos separar dele. Está no radical da palavra: o apartamento é o que aparta.
Sendo assim, o entorno nos é essencialmente preto. Ele deve absorver nosso reflexo, enquanto nossa casa deve explicitá-lo. Ao morar, somos egoístas, fazemos questão de criar um ambiente essencialmente nosso. Um ambiente dotado unicamente de nossa personalidade. Quando moramos, nos ensimesmamos no sentido mais literal da palavra. Apesar de extremamente naturalizado e, por isso, quase nunca percebido, morar é o hábito mais ensimesmado do homem. Morar é, por essência, a definição do ensimesmismo.
01. representação
colagens de papel cartão sob vegetal A3 220 g/m


Nos desenhos (planta abaixo e corte longitudinal na página posterior), cada tipo de estabelecimento foi representado de uma cor. Os banheiros, destaques do projeto, foram representados em amarelo. Os demais foram escalonados de acordo com a escala do ensimesmismo em seus usos. Para as lojas, foi utilizado azul bem clarinho. Os escritórios são um pouco mais escurecidos. As unidades habitacionais, por sua vez, estão representadas de um azul bastante escuro, mostrando terem uso muito mais individualista.
02. interior


Nos ambientes internos, o ensimesmismo se mostra na relação entre os cômodos. Afinal, cada ambiente tem seu uso. Consequentemente, em cada ambiente é possível se ensimesmar mais ou menos.
A sala, por exemplo, é no interior o espaço dedicado ao outro: é na sala que se recebe. O dimensionamento da sala explicita o quão sociáveis são os moradores, qual a importância que dão a visitas externas. No diâmetro oposto se encontram o quarto e o banheiro. No entanto, é neste último onde fazemos o que nos é considerado mais íntimo, mesmo dentro de nosso próprio “apartamento”. O número de banheiros de uma casa explicita, portanto, o quão sociáveis são os moradores em relação a eles mesmos. Um banheiro de uso individual simboliza as atividades íntimas serem feitas de forma escancaradamente privada: o banheiro de um só usuário mostra a necessidade deste usuário ser um só.
É por isso que neste projeto se recebe diretamente pelo banheiro: o hall é o banheiro. Além disso, suas paredes são envidraçadas, o cômodo é visto por todo o restante da casa. Também não há quartos: a ausência de quartos previamente delimitados dá à casa caráter rotativo, tornando impossível se fixar estritamente e, portanto, se ensimesmar.
03. exterior

corte longitudinal
O projeto procura reunir habitações dentro de um shopping-center, outro símbolo do ensimesmismo. Como já é amplamente difundido, um shopping é externo a seu entorno. Uma vez dentro dele, não se vê mais o que se passa em seu exterior. Ele é aberto a si mesmo, mas fechado aos outros.
Dentro do shopping, há também certa inversão. A começar, seus usos não são setorizados: tudo acontece ao mesmo tempo no mesmo espaço. Lojas estão misturadas a escritórios que, por sua vez, se misturam às casas. Não à toa, são todas as paredes de vidro: além de tudo ocorrer no mesmo espaço, é possível se ver do espaço tudo o que ocorre. Com as casas, não é diferente: tudo o que ocorre dentro delas é visto do restante do shopping. Com os banheiros a mesma coisa: eles se encontram espalhados pelos corredores, sendo também aquários de vidro transparente. Assim, funde-se o privado ao público, uma vez que o privado é, de certa forma, feito em público. Consequentemente, intimida a falta de intimidade.
A união público-privado também se dá pela circulação no complexo. Nele, se circula de forma rizomática. Muitos dos corredores são estreitos demais para a passagem. Assim, para passar, somos forçados a atravessar um estabelecimento, sem necessariamente precisar usá-lo para outra finalidade. A circulação vertical também obedece a essa lógica: para acessar o andar de cima, é preciso entrar em um estabelecimento de dois pavimentos e subir as escadas. Pouco importa qual o seu uso, todos os estabelecimentos devem ser públicos à passagem.
Se essa forma de circulação ou as paredes de vidro incomodam, é por estarmos acostumados ao uso ensimesmista dos espaços.